
Diretor do Denarc/SE, delegado é hoje um dos cronistas mais premiados do país em concursos literários de textos avulsos e acaba de se tornar bicampeão do Prêmio Nacional Poiesis de Literatura.
Há duas formas de investigar o mundo, e Ataíde Alves de Menezes Júnior pratica as duas. Na primeira, assina portarias, preside inquéritos e comanda, à frente do Departamento de Narcóticos (Denarc), uma das áreas mais sensíveis da Polícia Civil de Sergipe. Na segunda, senta-se diante de uma página em branco e persegue outro tipo de indício: o detalhe miúdo do cotidiano que, bem observado, revela algo sobre a condição humana. Pernambucano radicado em Sergipe, o delegado é hoje um dos nomes mais premiados da crônica brasileira em concursos literários — e faz do ofício policial e do ofício literário duas faces do mesmo gesto de atenção.
Uma vocação descoberta na adolescência.
O encontro com o gênero aconteceu cedo, ainda na adolescência, pela leitura dos clássicos: Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Stanislaw Ponte Preta e Luis Fernando Verissimo. Foi ali que se formou o repertório de um escritor que só muito depois decidiria expor os próprios textos ao julgamento público. A decisão veio em 2021, quando passou a participar de concursos literários. Em poucos anos, acumulou uma folha de serviços que impressiona pela constância.
Uma trajetória construída em cinco anos
No Prêmio Off Flip de Literatura, esteve entre os vencedores em três das cinco edições de que participou, com o primeiro lugar em 2024, além de destaque em 2023 e da condição de finalista em 2025. Conquistou o primeiro lugar em duas antologias do Selo Off Flip — +HUMOR e Na rede — e o terceiro lugar na antologia Nordestes, tendo figurado ainda como finalista e destaque em outras duas coletâneas.
Em concursos organizados pela Casa Brasileira de Livros, ficou em terceiro lugar no Prata da Casa em 2024 e voltou como finalista em 2025, certame que reúne mais de mil inscritos por edição. No Pena de Ouro, da mesma casa, concurso internacional destinado a participantes dos países lusófonos, foi semifinalista em 2024 e em 2025. No mesmo ano, chegou à condição de finalista do Prêmio Ruth Guimarães de Crônicas, promovido pela União Brasileira de Escritores.
O ponto mais alto veio no Prêmio Nacional Poiesis de Literatura. Vencedor da primeira edição com “Os Fantasmas Tiram Férias”, Menezes repetiu o feito na segunda edição, com “A Novíssima Biblioteca de Babel”, tornando-se o único autor a vencer as duas edições do prêmio — um bicampeonato sem precedentes na curta história do certame.
O resultado mais recente saiu neste mês de agosto: “Os Fantasmas Tiram Férias” conquistou o terceiro lugar na segunda edição do Prêmio Literário Outono em Vários Tons, promovido pela Editora Typus. A mesma crônica que abriu a série de vitórias no Poiesis voltou, assim, a figurar entre os vencedores em outro certame nacional — sinal de que o texto resiste a bancas e critérios distintos.
Do concurso ao livro
Em 2025, a trajetória em concursos desaguou no primeiro livro solo: Três Perus Metafísicos e Outras Crônicas, publicado pela Editora Urutau, reunindo 49 textos. Antes dele, o delegado já havia participado, como coautor, de Código Penal em Crônicas, da Editora Juspodivm, hoje em terceira edição — obra que aproxima o texto literário do repertório jurídico.
O escritor e a classe
A ligação de Menezes com a produção literária dos colegas de carreira é ativa. Ele presidiu a comissão julgadora do primeiro concurso literário nacional para delegados de polícia, iniciativa que resultou na antologia Crônicas e Contos Policiais — trabalho que exigiu leitura crítica cerrada de dezenas de contos e crônicas produzidos por autoridades policiais de todo o país e que ajudou a revelar, dentro da própria categoria, uma produção literária que costuma permanecer invisível.
O que vem a seguir
O escritor prepara agora A Era Desaxial e Outras Crônicas, reunião de cerca de cinquenta textos já aprovada pela Editora Urutau, a mesma casa que publicou seu livro de estreia. Enquanto isso, segue publicando na Comunidade Trema e em sua página no Instagram (@ataide.menezes.1), onde mantém contato direto com os leitores.
Perguntado sobre como concilia a delegacia e a literatura, Menezes costuma responder que não concilia coisa alguma: são, para ele, duas formas de investigar o mundo. Em ambas, o método é o mesmo — olhar com atenção para aquilo que os outros deixam passar.



